Em Os Novos Escribas – o fenômeno do jornalismo sobre investigações no Brasil (Arquipélago Editorial, 2010), lançado em abril, Solano Nascimento faz uma diferenciação entre o jornalismo investigativo e o jornalismo sobre investigações, levantando uma discussão sobre o modo de se fazer reportagens investigativas no Brasil atual.
Solano Nascimento começou como repórter em 1986 e durante cerca de 20 anos trabalhou em grandes veículos da imprensa nacional. Atualmente é professor na Universidade de Brasília (UnB). O jornalista se formou na PUC do Rio Grande do Sul, tem especialização em Teorias do Jornalismo, mestrado em História Iberoamericana e doutorado em Comunicação.
Eu o entrevistei numa quinta-feira de manhã, no horário que ele orienta seus alunos numa disciplina de laboratório, o que gerou algumas interrupções durante a conversa. Apesar de ocupado, Solano foi muito receptivo e atencioso ao conversar sobre seu livro e sua trajetória profissional.
OPN - Solano, primeiramente, conte-nos como surgiu o interesse pelo jornalismo e, principalmente, pelo jornalismo investigativo. Como foi sua preparação para se tornar um jornalista investigativo? Você se considera um jornalista investigativo?
S.N. - Comecei a trabalhar como repórter em 1986, há quase 25 anos. Durante 20 anos só trabalhei como repórter. Nesse tempo, me deparei com matérias que exigiam investigação, mas não fiz só isso na minha vida. Não gosto de dizer que fulano de tal é um jornalista investigativo. Não há no Brasil um jornalista que faça somente jornalismo investigativo, e nem no mundo, eu acho. O jornalista pode fazer reportagens investigativas, assim como qualquer outra.
Me formei na PUC (Pontifícia Universidade Católica) do Rio Grande do Sul (RS), fiz uma especialização em Teorias do Jornalismo na PUC, mestrado em História Iberoamericana, e doutorado em Comunicação na Universidade de Brasília (UnB). Desde meus primeiros contatos com o jornalismo, me interesso pela área investigativa, principalmente pelo potencial de provocar mudanças na sociedade.
OPN - Por que você achou importante fazer essa discussão do livro?
S.N. - O jornalismo investigativo no Brasil está estagnado e o jornalismo sobre investigações está crescendo. Para mim, esta discussão é importante porque acredito que ainda é possível mudar isso, principalmente se trabalharmos com a conscientização dos jovens jornalistas. Se eu pudesse escolher um público, seriam vocês, que estão começando o curso.
Claro que também quero que os veteranos discutam isso. No livro eu trago elementos novos. A análise de todas as matérias com denúncias inéditas produzidas pelas três maiores revistas do Brasil mostra que 70% são resultados de investigações alheias.
A idéia é incentivar a discussão entre os jovens jornalistas para que seja possível alterar essa realidade.
OPN - Como nós, estudantes de jornalismo, podemos refletir, nos posicionar e, talvez, atuar, a respeito disso?
S.N. - É mais difícil, mas é muito mais prazeroso. Não dá para comparar a sensação que um repórter tem quando publica uma reportagem que investigou do que se a tivesse recebido pronta. A sensação de dar um furo é mais ou menos parecida. É claro que é mais difícil, mas isso só torna mais importante o processo, porque a dificuldade que existe em fazer uma investigação é o que faz com o que a imprensa possa ter um papel relevante na tentativa de mudar alguns quadros. Se a gente só reproduz uma investigação pronta, quem teve o papel relevante foi quem fez a investigação.
